Açúcar (em histórias amargas)
Sinto o sal do mundo grudado na pele. Ele arde, mistura-se ao cheiro azedo da água de mijo da praia, à maresia suja que entra pelo nariz e parece não sair nunca mais. O chão é frio, áspero, e meu corpo está largado na horizontal, como coisa esquecida. Ao redor, bocas velhas vomitam preces sagradas, cheias de culpa disfarçada de bem-querer. Pedem a Deus por mim, mas não me veem. Os olhares são sutis como o aço fino da navalha: não cortam de imediato, mas prometem sangrar depois. Por fora, estou imóvel. Por dentro, minha cabeça martela sem descanso. Vêm os flashes, em rajadas tortas: a palavra Aberração, a paulada seca, os chutes vindo de todos os lados. A dúvida cuspida no ar — “Ele morreu?” — seguida do veredito rápido: menos um lixo. Risos. Sempre os risos. O som deles é o que mais dói, porque prova que minha dor diverte. Sinto o gosto metálico do sangue e penso se ainda estou inteira ou só funcionando por hábito. Dizem que quem passa por isso, quem quase vai e volta, ...