Carta para uma avó que não conheço
Vó, eu queria começar essa carta te chamando pelo nome, mas não a conheço. Eu agradeço ao Universo por ter sido adotado, eu digo que tive sorte; é como se Deus olhasse pra mim e dissesse: “Eu vou dar pais muito melhores para ele!”; mas com isso os meus antepassados de sangue se perderam. Eu não os conheço, eu não te conheço.
Em
alguns momentos eu gosto de pensar que te vejo em algumas senhoras pretas.
Esses tempos atrás eu estava no forró e tinha uma senhorinha tão familiar, de
cabelos brancos, olhos de jabuticaba e com um vestido de renda. Eu acho que ela
se parece com você (posso te chamar de você?), mesmo não te conhecendo. Sei que
não é racional, é o que eu senti, ainda mais quando a chamei para dançar
comigo.
No
terreiro que eu frequento eu acho que vejo a senhora nas giras de pretos
velhos, com seu sorriso frouxo e sua sabedoria simples nas palavras. Se não
for, já é. Essa busca, que é algo que eu nunca tinha parado para pensar, agora
percebo que sempre existiu.
Seu
neto aqui se formou em duas faculdades, se tornou psicólogo e cuida das dores
dos outros. Quem diria? E você, o que sente? O que dá para dizer de concreto da
nossa relação de não-lugar é a ausência. Eu nem sei se a senhora sabe que um
dia teve eu de neto, mas esses “talvezes” me dá a possibilidade de acreditar em
um final que de alguma forma faça sentido e me alimenta.
Mesmo
que a gente nunca tenha trocado palavras, percebo que essa distância me ensinou
a buscar em mim aquilo que poderia ter sido seu legado: a coragem de ser inteiro,
a resiliência diante das dores e o amor silencioso que pulsa na nossa raça.
Eu,
com quarenta e três anos, tenho tantas dúvidas ainda, mas agradeço, porque de
alguma forma, eu tenho a certeza que a força que eu sinto vem também de um
passado potente de ancestralidade que me atravessa e vai se movimentando além
de mim até hoje. Eu gosto de pensar assim.
Você é um capítulo não escrito da minha história, mas que agora compreendo que eu levo comigo como se estivesse sempre presente. Não sei se algum dia, se ainda estiver viva, nos cruzaremos por aí mas, até que esse momento chegue, eu vou te encontrando nos olhares das diversas mulheres negras que me inspiram e me fortalecem para eu continuar.
Hoje, essa carta é um encontro, uma ponte entre o que foi e o que ainda pode florescer. Eu te celebro, minha vózinha, por ser essa raiz que mesmo desconhecida me sustenta e inspira. Te peço benção! Que a senhora esteja bem onde quer que esteja! |De seu neto que te honra – Alexandre. Desconfio que você me chamaria de Xandy.

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